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 O Patriarca - Waldemar Tiago de Souza
A sua origem é das mais modestas, qualidade que sempre o caracterizou, conseguindo, inclusive, educar seus filhos dentro do espírito de elevado sentido moral, fraterno e humilde.

Waldemar Tiago de Souza nasceu a 23 de abril de 1926, na localidade de Espinheiro, município de Itajaí. Seus pais logo após seus cinco anos, mudaram-se para Ilhota, onde Ele viveu sua infância e juventude. Fez, naquela localidade, seus estudos primários, freqüentando a escola Municipal. Seus pais chamavam-se Tiago Romualdo de Souza e Maria Cantidia.

Até os 7 anos de idade, o pequeno Waldemar era um menino muito doente e raquítico. Parecia até que não chegaria à idade adulta. Apesar dos cuidados de seus pais, ele não conseguia se desenvolver satisfatoriamente.

Certo dia, alguém aconselhou o pai de Waldemar a lhe dar uma forte dose de leite de figueira, uma espécie de árvore que produz este liquido e que os pioneiros colonizadores desta região do Vale do Itajaí utilizavam bastante como medicamento contra o enfraquecimento físico das pessoas.

Waldemar tomou uma dose de leite de figueira. Atravessou dias em que se colocava em dúvida se viveria, pelos efeitos causados pelo remédio. Todavia, resistiu bem e o remédio lhe fez voltar à forma física ideal, tornando-se um menino saudável, cheio de vontade de exercitar-se, alegre e mais dedicado aos estudos. Já naquela idade, procurava praticar tudo o que é de esporte que lhe fosse possível fazê-lo, a começar pelos exercícios escolares. Com isso, sua compleição física, apesar de sua baixa estatura, foi se desenvolvendo, seus pulmões tornaram-se fortes e ele passou a ser o pequeno atleta que mais tarde haveria de empolgar as platéias. O primeiro esporte pelo qual ele se apaixonou foi o futebol. A época era de penúria econômica, especialmente para sua família. Também os seus demais colegas de folguedo eram todos de origem muito humilde. Por isso, a diversão dos meninos, na prática do futebol, se acentuava muito mais no inverno. Explica-se: não possuíam recursos para comprar bola de borracha. Era difícil até às vezes de compor uma bola feita de pano, porque todos os trapos eram aproveitados em casa para remendos de roupas. Assim, eles utilizavam-se de laranjas ainda verdes, para praticar seu futebol. Por isso, o inverno época de produção de laranja, lhes permitia incrementar mais folguedos futebolísticos. No verão, quando escasseava a laranja, alguém sempre conseguia uns trapos e meia furada, com o que faziam a bola para jogar, embora a duração da mesma fosse de tempo limitado.

No ano de 1937, seus pais mudaram-se para Blumenau. Waldemar contava 11 anos de idade. Tão logo se instalaram em Blumenau, o menino procurou auxiliar os pais na sobrevivência, passando a vender doces, pelas ruas da cidade. Tornou-se bem conhecido pelo seu exemplar comportamento. Tanto assim que mais tarde lhe confiaram a venda de jornais e revistas, jornais como “O Dia” de Curitiba, as revistas “A Noite Ilustrada”, “Vamos Ler”, “A Carioca” e outras. Além de vender doces em horas escolhidas e os jornais e revistas. Waldemar também montou uma engraxadeira de sapatos e, na qualidade de engraxate, também arrecadava uns bons trocados para auxiliar seu pai nas despesas da casa. O seu trabalho de engraxate, ele desempenhava junto à "Engraxataria Ponto Chic".

Dos 13 aos 15 anos trabalhou na Companhia Gropp, situada à Rua Itajaí, em cuja empresa desempenhou funções na seção de colagem de compensados. Era um trabalho que não o atraia muito, mas desempenhava com dedicação, porque servia para o seus sustento e o de seus familiares. O importante para ele, foi sempre o trabalho.

Entretanto, desde que chegou a Blumenau, Waldemar sempre procurou, após o trabalho do dia, praticar futebol, pelo qual sempre fora um apaixonado. Realizava, aos sábados ou domingos, suas partidas, integrando equipes em movimentadas peladas, que lhe permitiram tornar-se um excelente jogador, apesar de sua baixa estatura. Por isso, foi convidado a jogar no juvenil e na equipe de aspirantes do Palmeiras, em cujas equipes sempre se destacou pela sua dedicação e movimentação em campo, já que sempre fora dotado de um preparo físico invejável.

Era ele ainda atleta do Palmeiras, quando foi indicado entre outros colegas para fazer a primeira corrida, conduzindo o fogo simbólico, isto quando possuía 16 anos de idade.

Foi com a idade de dezesseis anos que Waldemar perdeu seu pai. Era seu pai o seu melhor amigo e sempre o aconselhava a praticar com dedicação o esporte, dizendo-lhe que o seu destino, um dia, era o de tornar-se um afamado atleta.

Não deixou, por isso, de seguir os conselhos de seu pai e continuou a jogar futebol e praticar atletismo sempre que podia. E com a morte de seu pai, Waldemar empregou-se numa fábrica de artefatos de madeira, que funcionava no local aonde hoje se encontra os fundos da Casa Flamingo. A firma pertencia ao Sr. Leonardo Schlossmacher. Sua função era a de aprendiz de torneiro. Dedicou-se com entusiasmo pelo aprendizado, tornando-se, em pouco tempo, um dos melhores artífices daquela profissão, executando trabalhos magníficos. Esta dedicação e amor pela profissão que abraçou a partir daquela época, é que lhe garantiu o futuro que hoje desfruta com sua família.

Mas, voltando ao esporte, Waldemar acabou descobrindo, graças à sua extraordinária resistência física, a condição de fundista. Assim, participou, juntamente com atletas de nome já consagrados, da sua primeira corrida de fundo, percorrendo oito quilômetros, fazendo-o sem maiores pretensões, mas surpreendendo a si próprio, ao conquistar entre os já renomados atletas, um honroso quarto lugar. Com este resultado, Waldemar empolgou-se e compreendeu que seu pai tinha razão ao afirmar que ele seria um afamado atleta. Era então só persistir nos treinos intensivos. E tanto se dedicou aos seus preparativos físicos, dividindo seu tempo entre o trabalho e o esporte, que participando de uma segunda prova, esta de 10 mil metros, venceu e conquistou assim a sua primeira medalha. Isto aconteceu entre os anos de 1942 e 1943. Aquela empolgante vitória fez com que Waldemar Tiago fosse convidado a integrar o plantel de atletas do Grêmio Esportivo Olímpico. Mas continuou jogando futebol, integrando a equipe da Congregação Mariana, que naquela época, possuía uma equipe respeitável.

A partir daqueles anos – 1943/1944, Waldemar Tiago foi cada vez mais conhecido e aplaudido nas pistas, não só de Blumenau, mas do Estado e fora deste também.

Das milhares de competições que então passou a realizar, diz ele que a sua maior emoção foi quando participou da prova realizada em Apucarana, no Paraná, isto no ano de 1963, quando já possuía 43 anos e competiu com atletas todos bem jovens, em numero de 1.000 participante, tendo, assim mesmo, chegado em 10º lugar, pelo que foi muito homenageado. Naquela competição, estavam jovens atletas de todo o país.

Em julho de 1988, após os grandes feitos que o consagraram em sua mocidade, Waldemar Tiago venceu a 2ª Maratona Nacional correndo de Itajaí à Blumenau, na sua categoria de veterano.

Aos 27 anos de idade, Waldemar Tiago, casou com a jovem Lídia Maria da Silva, isto no dia 24 de janeiro de 1953. O casamento nunca o afastou das pistas de atletismo, continuando como o maior fundista catarinense e até mesmo incentivado por sua jovem esposa.

Do feliz consórcio, Waldemar teve a felicidade de ver nascer seus filhos sempre sadios e que em sua maioria trouxeram consigo, o mesmo espírito desportista. Foram dezenove filhos com que o casal foi presenteado, dos quais apenas três faleceram ainda em tenra idade. Eram todos recém nascidos. Os outros dezesseis filhos cresceram sempre saudáveis e cercados pelo carinho e ternura de seus pais. São eles: Waldemir, Ligia, Sonia, Edgar, Cláudio, Vlamir, Neusa, Tiago, Ângelo, Pedro Paulo, Ângela, Cantidia, Waldemar, Eraldo César, Sergio Luis e Cleide. Destes, tornaram-se consagrados atletas, nada menos do que treze, entre rapazes e moças, contando-se ainda a esposa de Vlamir, de nome Adriane, que após haver casado, descobriu sua vocação para o pedestrianismo e já tem conquistado numerosos troféus e medalhas. O mesmo acontece com o esposo de Neusa, de nome Celso Puhler, que também integra com destaque a equipe de atletas da família Tiago. Todos os filhos de Waldemar começaram a praticar esportes ainda bem jovens, a exemplo do pai.

Mas, retornando um pouco ao passado, Waldemar deixou do emprego na firma de Leonardo Schlossmacher aos 21 anos de idade, passando a trabalhar com carroça de frete, que naquela época era muito utilizada, fazendo este trabalho por conta própria com o veículo que era seu. Esta atividade ele desenvolveu até aos 27 anos quando se casou.

Apesar das inúmeras dificuldades que a vida sempre lhe apresentou para sobreviver, Waldemar nunca deixou o esporte. Viveu sempre para o árduo trabalho e para a magia do esporte que era uma de suas grandes paixões como ainda acontece nos dias de hoje.

Waldemar Tiago representou Blumenau em importantes competições no Estado e em outras unidades da Federação, como Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, etc., conquistando sempre troféus e medalhas que foram enriquecendo sua hoje fabulosa coleção.

Para poder viver uma vida mais ordenada à sua custa e criar seus filhos dentro de um padrão moral e de exemplos de trabalho e perseverança, Waldemar resolveu após seu casamento, instalar sua própria fábrica de artefatos de madeira, cuja capacidade técnica havia adquirido quando trabalhou na firma de Leonardo Schlossmacher. Os primeiros tempos foram difíceis, pois era preciso algum capital de giro e lê não o possuía. Mas possuía inteligência e capacidade de trabalho. Assim, à custa de financiamento de firmas e pessoas amigas que o abasteciam com o material necessário, ele foi vencendo as dificuldades e acabou por construir, finalmente, uma das mais modernas fábricas no gênero, em Blumenau, sendo a sua firma e seus produtos conhecidos e muito apreciados em todo o Estado e até noutros Estados da União.

Esta perseverança profissional e de iniciativa própria, lhe deu condições a que pudesse ir criando seus filhos que iam nascendo dando-lhes não só conforto necessário, mas o alimento e as atenções médicas para que crescessem com saúde e que futuramente se tornassem também atletas.

À medida que os filhos foram crescendo, passaram a integrar a equipe de atletas, primeiramente mirins, mais tarde juvenis e finalmente adultos, que tantas glórias têm dado ao esporte de Blumenau, disputando provas em todo o Estado e noutras unidades da Federação.

Os rapazes e as moças, sempre unidos, revelaram, como até os dias de hoje, o espírito comunitário e fraterno de uma verdadeira família, tanto assim que, por não desejarem viver muito afastados uns dos outros, os filhos que foram casando, tanto rapazes como as moças, foram construindo suas casas na vasta propriedade que Waldemar adquiriu ainda quando os filhos eram muito pequenos e que se situa no alto de uma das elevações existentes no bairro Garcia, lá, após construir sua primeira casa que, ao longo dos anos, ficou pequena para a numerosa família, construiu a segunda, bem maior, e foi construindo também as casas para os filhos e filhas que iam casando. Hoje são numerosas as casas já existentes na conhecida “Vila Tiago”, de cujo local se descortina uma visão muito bela não só do bairro Garcia, como de boa parte da cidade e outros bairros.

Com toda essa luta e dificuldades que sempre enfrentou, Waldemar conseguiu que a maioria dos filhos e até genros trabalhassem consigo, na fábrica de artefatos de madeira, possibilitando assim ampliar a produção e garantir a sobrevivência de todos, além de manter a grande união entre filhos e genros.

Não acontece nenhuma competição de corrida de fundo em Santa Catarina, em que a família Tiago, não esteja presente em sua totalidade – masculino e feminino, ou pelo menos uma representação da mesma.

O exercício físico de todos é realizado num campo de esportes que ele conseguiu construir próxima a sua residência, lá no alto. Ali se pratica o exercício físico de corrida, assim como se disputam acirradas partidas de futebol entre os familiares e equipes que os visitam todos os fins de semana, quando não estão disputando competições lá fora. Isto une ainda mais a Família Tiago, cujos exemplos por certo também serão seguidos pelos netos de Waldemar que aos poucos, vão nascendo e que já constituem quase uma dezena. Eles, por certo, empolgados pelo que vão observando de seus pais e avô, acabarão mantendo a tradição esportiva da família ao correr dos próximos anos.

A partir da década de 1980, tem sido comum encontrar-se, na maioria das competições esportivas de caráter amadorista – atletismo, corrida de fundo, etc, numerosos atletas que pertencem a uma só família. Trata-se da hoje conhecidíssima e aplaudida família de atletas Tiago.

A presença desta família de atletas, filhos e filhas seguiram a vocação de seu pai, acontece em quase todas as competições que se realizam no Estado, assim como em diversas cidades do Paraná e até do Rio Grande do Sul.

Nos dias de competição, lá estão, comandados por Waldemar Tiago, atravessando hoje os seus 64 anos de idade, aqueles rapazes e moças, alguns já casados, e até uma nora de Tiago também compete na mesma modalidade do marido.

E convenhamos que a intervenção da Família Tiago nestas competições das quais participaram sempre os melhores atletas do Estado e lá fora, dificilmente ou quase nunca saem os membros desta família das tais competições, sem levar troféus e medalhas. Por isso mesmo, é imensa a quantidade de troféus e medalhas que cada um dos filhos de Tiago possui. Naturalmente que o maior e valiosíssimo acervo pertence ao próprio grande atleta, que durante mais de duas dezenas de anos fez vibrar a torcida blumenauense com suas conquistas em competições de 5 e 10 mil metros, além de maratonas diversas. Waldemar Tiago também sempre representou condignamente Santa Catarina na Corrida de São Silvestre, em São Paulo, obtendo não raras vezes ótimas classificações.

Na condição de atleta que soube sempre honrar as tradições esportivas de Blumenau que vem desde a sua fundação no século passado, Waldemar Tiago sempre foi considerado, pela imprensa blumenauense e de Santa Catarina uma das glórias do nosso atletismo, nunca deixando de aperfeiçoar-se fisicamente para sempre desempenhar cada vez melhor sua missão de defender o esporte blumenauense e também catarinense.

Mas, não poderíamos encerrar este registro da vida desta figura extraordinária que é Waldemar Tiago de Souza e de sua dedicada esposa, dona Lídia, mãe de dezenove filhos, sem registrar, também, o número de troféus e medalhas até agora conquistados pelo valoroso atleta e também os que foram conquistados por seus filhos, filhas, genros e nora. Vamos, pois à estatística, que haverá de impressionar pelo número que for surgindo:

Waldemar Tiago – conquistou até esta data, março de 1990, nada menos do que 450 (quatrocentos e cinqüenta) troféus e 550 (quinhentos e cinqüenta) medalhas entre douradas, prateadas e de bronze. Total: 1.000 (mil).

Seus filhos conseguiram o seguinte:

- Cleide, 43 troféus e 197 medalhas – total 240.
- Ângela, 42 troféus e 175 medalhas – total 217.
- Cantidia, 10 troféus e 75 medalhas – total 85.
- Sérgio, 25 troféus e 145 medalhas – total 180.
- Eraldo, 4 troféus e 110 medalhas – total 114.
- Waldemar Filho, 20 troféus e 155 medalhas – total 175.
- Pedro Paulo, 17 troféus e 123 medalhas – total 140.
- Ângelo, 80 troféus e 190 medalhas – total 270.
- Cláudio, 2 troféus e 50 medalhas – total 52.
- Edgar, 29 troféus e 210 medalhas – total 239.
- Waldemir, 8 troféus e 165 medalhas – total 173.
- Wlamir e esposa Adriane, 105 troféus e 450 medalhas – total 555.
- Neusa e esposo Celso, 2 troféus e 20 medalhas – total 22.


Reunindo-se, assim todos os troféus e medalhas conquistadas por Waldemar Tiago e seus filhos e noras, chegamos ao seguinte: Total de troféus conquistados: 837. Total de medalhas: 2.615 – total geral: 3.452.

As conquistas da Família Tiago, no entanto não pararam. Após o levantamento que fizemos, com os números acima, os componentes da equipe já disputaram novas provas, conseguindo a conquista de mais troféus e medalhas. Daí concluir-se que, ao correr dos tempos, pelo menos durante o corrente ano, esses atletas que compõem uma equipe em família, comandados pelo patriarca Waldemar, haverão de conquistar muito mais troféus e medalhas, enriquecendo constantemente o grande acervo já existente.

Apesar de já ter atingido os 64 anos de idade, Waldemar Tiago de Souza é sempre o mais ativo e entusiasta do grupo, incentivando seus filhos, noras e até netos que já começam a despontar como futuros campeões, à prática de tão salutar esporte. Ele participa sempre de disputas entre atletas cuja idade varia entre 40 e 60 anos ou mais, alcançando ainda esplêndidos resultados. Seu amor ao esporte, seu entusiasmo pela vida e o exemplo de sua tenacidade em manter-se fisicamente em boa forma, preservando, com isso, a sua saúde, tem sido uma das fortes razões pelas quais seus filhos atletas lhe têm seguido o exemplo.

Este registro, portanto, que fazemos hoje em Blumenau em Cadernos, haverá de perpetuar um exemplo que as gerações atuais e futuras poderão seguir, visando não somente a alegria nas conquistas esportivas, como também preservar a saúde para uma vida mais longa e venturosa.

As nossas homenagens a Waldemar Tiago de Souza, neste mês de abril de 1990, quando ainda em plena forma física e conquistando, com vitórias espetaculares nas competições de corridas de fundo, junto com seus filhos, novos troféus e medalhas, atinge os seus 64 anos de uma vida feliz e de tantos e tão belos triunfos, cercado do carinho e do respeito de seus filhos e de admiração da comunidade blumenauense!





Fonte: Blumenau em cadernos - abril de 1990 – nº. 4 – ano XXXI – pg.107 - 113